Elizabeth Bishop: de homenageada a cancelada

Eu não estava planejando fazer este post tão cedo, principalmente porque estou atarefada com o lançamento de A Rainha do Ignoto se aproximando (aliás, quem quiser apoiar o lançamento e garantir seu exemplar, basta clicar aqui), além de outros livros com os quais estou envolvida pela Primeira Edição, contudo, depois de ler a matéria publicada no portal Publish News em 04/12/2019, decidi antecipar esta postagem.

Flip dá sinais de que poderá rever homenagem a Bishop

“A campanha lançada contra a poeta nas redes sociais logo após o anúncio foi bastante expressiva e chamou nossa atenção e escuta. Estamos ouvindo as manifestações de todos e pensando em seu significado com a serenidade que essa questão merece”, comunicado à imprensa dos organizadores da Flip.

No dia 25 de novembro, a organização da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, uma das mais prestigiadas do país, anunciou o autor homenageado em sua 18ª edição, que acontecerá do dia 29 de julho a 02 de agosto de 2020.

O autor homenageado escolhido pela organização foi a estadunidense Elizabeth Bishop. É a primeira vez que a Flip irá homenagear um estrangeiro, tendo em vista, segundo a organização sua missão de tornar a arte literária brasileira mais reconhecida no mundo.

“Oswald de Andrade e a turma da Semana de 22 já digeriram essa questão do que é arte brasileira muito tempo atrás. Não é por ter sido escrita em língua inglesa que a poesia de Bishop está menos encharcada do Brasil que a de Drummond ou João Cabral de Melo Neto” ― Mauro Munhoz.

Elizabeth Bishop

Nascida em 1911 nos Estados Unidos, teve uma infância difícil, criada por diversos parentes, o que não a abalou, mas rendeu diversos poemas. Foi, portanto, uma poetisa excepcional, resolvendo dedicar sua vida à poesia. Não foi uma vida fácil, porém; dependia de doações, prêmios e incentivos para sustentar sua carreira.

Falando em prêmio, recebeu vários. Sua coletânea de poesias North & South. A Cold Spring recebeu o Prêmio Pulitzer de poesia em 1956 e o National Book Award. Também venceu o Houghton Mifflin Prize (1946), o National Book Critics Circle Award (1976), e foi a primeira mulher a receber o Prêmio Literário Internacional Neustadt (1976) pelo conjunto de sua obra. Ao todo foram 20 prêmio, sendo o último em 2010, póstumo, tendo sido eleita para o New York Writers Hall of Fame.

Chegou ao Brasil como turista e aqui permaneceu por mais de 20 anos. Seu romance com Lota de Macedo Soares foi enredo do filme Flores Raras, de 2013. O Brasil foi tema central de inúmeros poemas, contos e cartas, assim como os Estados Unidos, o Canadá e a Europa. Muitas obras continham críticas sociais, e era contrária ao sistema de segregação racial que existia em seu país. Também contribuiu para a difusão da arte nacional nos países de língua inglesa, tendo traduzidos obras dos maiores poetas brasileiros, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Oswald de Andrade e Vinícius de Moraes. 

De política, porém, dizem aqueles que estudam a vida e a obra da autora que pouco figurou em seus trabalhos, não sendo uma grande fonte de discussões sobre o tema. 

Elizabeth Bishop foi, portanto, mulher, lésbica e uma das maiores poetas do século XX. Sofria de alergias, depressão e alcoolismo. Faleceu aos 68 anos em 1979, mas deixou este legado:

Coleções de poemas:

  • North & South (Houghton Mifflin, 1946)
  • Poems: North & South. A Cold Spring (Houghton Mifflin, 1955) 
  • A Cold Spring (Houghton Mifflin, 1956)
  • Questions of Travel (Farrar, Straus, and Giroux, 1965)
  • The Complete Poems (Farrar, Straus, and Giroux, 1969)
  • Geography III (Farrar, Straus, and Giroux, 1976)
  • The Complete Poems: 1927–1979 (Farrar, Straus, and Giroux, 1983)
  • Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop ed. Alice Quinn (Farrar, Straus, and Giroux, 2006)
  • Poems, Prose and Letters by Elizabeth Bishop, ed. Robert Giroux (Library of America, 2008)
  • Poems (Farrar, Straus, and Giroux, 2011)

Outros trabalhos

  • The Diary of Helena Morley, de Alice Brant, traduzido e com introdução escrita por Elizabeth Bishop (Farrar, Straus, and Cudahy, 1957)
  • The Ballad of the Burglar of Babylon (Farrar, Straus, and Giroux, 1968)
  • An Anthology of Twentieth Century Brazilian Poetry editado por Elizabeth Bishop e Emanuel Brasil (Wesleyan University Press (1972)
  • The Collected Prose (Farrar, Straus, and Giroux, 1984)
  • One Art: Letters, selecionado e editado por Robert Giroux (Farrar, Straus, and Giroux, 1994)
  • Poems, Prose and Letters editado por Robert Giroux e Lloyd Schwartz (New York: Library of America, 2008)
  • Words in Air: The Complete Correspondence Between Elizabeth Bishop and Robert Lowell, editado por Thomas Travisano, Saskia Hamilton (Farrar, Straus & Giroux, 2008)

No Brasil

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A polêmica

Além do fato de a homenageada da 18ª Festa Literária Internacional de Paraty não ser uma escritora brasileira (e não faltam nomes de possíveis homenageados ou homenageadas mais relevantes, o que eu concordo em parte), ainda pesa contra Bishop a acusação de ter sido favorável ao golpe militar, o que é sim um fator negativo, mas vamos pensar sobre isso por um momento:

  • Outros autores também se mostraram a favor do golpe de 1964, como Manuel Bandeira e Guimarães Rosa ou Nelson Rodrigues, que foi homenageado em 2007 e “defendeu a ditadura incansavelmente” (Antonio Prata);
  • Em 1964, quem poderia prever os crimes que seriam cometidos por parte dos militares, todas a torturas, assassinatos e desaparecimentos? Como disse Fernanda Diamant, “Bishop não tinha a previsão do futuro, estava vivendo aquele momento, e de uma forma bastante específica”.

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Para mim, tal homenagem não poderia ter vindo em melhor momento, e as discussões que gerou por toda a internet são importantíssimas para que nós possamos analisar e entender melhor o momento em que estamos vivendo (e é claro, por que não, trazer à discussão o próprio Golpe?). Veja bem, atacar opiniões e ideologias é diferente de atacar pessoas diretamente, seja individual ou no coletivo. Qualquer um, por qualquer motivo está sujeito hoje ao ”cancelamento”, que muitas vezes é baseado em pré-conceitos, em frases soltas, sem qualquer interesse em aprofundar a discussão ou realmente conhecer a pessoa em questão ou sua obra. São esses os elementos do extremismo político que permeia a nossa geração.

E como o óbvio precisa ser dito, quero deixar claro que esta é apenas a minha opinião, de maneira alguma quero tirar o seu direito à sua própria opinião, mas quero deixar alguns questionamentos:

Bishop foi mulher, órfã, lésbica e poeta que decidiu viver de sua arte; ela realmente estaria tão distante assim das discussões do nosso tempo? Estamos mesmo condenando uma mulher por não poder prever o futuro e por ter uma opinião política? (que mostrou-se equivocada, sem sombra de dúvidas, mas lembro que em momento algum ela mostrou-se favorável às torturas e assassinatos que aconteceriam). Mas não representou qualquer problema em 2007, quando a Flip homenageou o escritor Nelson Rodrigues, grande defensor da ditadura militar. É um assunto delicado, e concordo com as atuais preocupações, mas é mesmo suficiente para condenar a obra e a vida de uma artista tão emblemática e atacar um festival literária como estão fazendo tão efusivamente? 

Se uma coisa boa resultou disso tudo foi a oportunidade de redescobrir uma escritora, uma poetisa cuja vida e obra podemos admirar e até discordar, por que não?

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Leia mais sobre o tema:

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Peço desculpas por não ter podido pesquisar mais profundamente sobre a vida da autora e os outros temas aqui abordados, mas era importante que este texto saísse em meio à discussão gerada

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